Depois de esquecida, gripe suína volta a matar em Minas
Pedrinópolis - As 11 pessoas que morreram em Minas Gerais neste ano em consequência da gripe H1N1 – sete a mais do que o total de óbitos registrados no estado no ano passado – foram vítimas, entre outras causas, do esquecimento das autoridades de saúde e das pessoas, que não se lembram mais dos riscos da doença que em 2009 apavorou o mundo A avaliação é de especialistas envolvidos diretamente no combate à Influenza A, como Estevão Urbano, diretor da Sociedade Mineira de Infectologia, para quem o crescimento do número de casos pode ter relação com o abandono das práticas de higiene que ajudam a evitar a doença.
“Não estamos vivendo uma epidemia, mas independentemente disso não podemos diminuir o esforço para combater a doença”, alerta, lembrando de hábitos simples como lavar as mãos, usar lenços para espirrar e sempre procurar o médico diante do sintomas são fundamentais para impedir a contaminação pelo vírus da gripe A.
O professor da Faculdade de Medicina da Universidade Federal de Minas Gerais e infectologista Unaí Tupinambás, assim como Urbano, considera fundamental a retomada dos cuidados para evitar o contágio. “A gripe A é uma doença que pode evoluir rapidamente. Especialmente nos grupos de risco. Não é preciso haver alarde, mas diante de sintomas, a população deve procurar imediatamente o posto médico.”, Na avaliação do especialista, as palavras que bem definem o atual momento são prevenção e tratamento.
Medo
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Raphael Ribeiro de Paula, genro do casal morto em Pedrinópolis |
Em Pedrinópolis, no Alto Paranaíba, a 374 quilômetros de Belo Horizonte, onde foram registradas as mortes do pastor Eduardo Eli da Silva, de 67 anos, e de sua esposa, a professora aposentada Maria Lúcia Soares Silva, de 59, vítimas do vírus H1N1, o temor de contágio é real e todo mundo está preocupado. Em apenas três dias, 4,2 mil vacinas foram aplicadas, sendo que a população do município é de 3.448 pessoas, Para os médicos, o fantasma do vírus da influenza A aterrorizou a população local.
Temor que não é infundado, uma vez que a região do Alto Paranaíba figura como a mais afetada de Minas Gerais, concentrando 5 (15%) dos 33 casos e 4 (36%) das 11 mortes pelo vírus H1N1, segundo a Secretaria de Estado de Saúde. “Foi um Deus nos acuda, porque ninguém lembrava direito do perigo dessa doença”, conta a comerciante Izabel Donizette Ferreira Santos, de 57 anos, moradora de Pedrinópolis e uma das primeiras a se vacinar.
A impressão da comerciante é reforçada pelo secretário de Saúde da cidade, Richard Pires de Oliveira, que também acredita que a campanha de prevenção esmoreceu depois dos primeiros surtos de 2009. “Naquela época tivemos apenas um caso e o doente, um estudante jovem, se recuperou. Mas a campanha foi nacional. Aos poucos as pessoas foram esquecendo”, admite. “Dessa vez não tivemos muito tempo. Medicamos quem teve contato com os doentes com o tamiflu (antiviral) e iniciamos a vacinação em massa para conter o pânico”, conta. De acordo com ele, foram gastos R$ 40 mil para vacinar toda a população. “Isso funciona numa cidade pequena como a nossa. Porém, os doentes chegaram de fora, de municípios onde não é possível imunizar toda a população”, se preocupa.
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A infectologista e assessora da Sub-Secretaria de Vigilância em Saúde, Tânia Marcial, diz que não há motivo para alarde e que a situação é considerada “sob controle”. Ela explica que todos os anos é feito um estudo sobre quais vírus que vão circular com maior intensidade no inverno e que já era esperada uma incidência maior do H1N1. Segundo ela, o número maior de casos de contaminação por influenza A tem alguns motivos. “Após a pandemia de 2009, a vigilância e os profissionais de saúde passaram a fazer exames com mais frequência. Isso ampliou a investigação e aumentou o número de casos de influência A”, afirma Tânia. Segundo ela, ainda podem se vacinar em qualquer posto de saúde as gestantes e as crianças abaixo de dois anos. Pessoas com problemas de saúde poderão ser vacinadas com a prescrição médica.
Medicamentos
O Ministério da Saúde informou que 418,8 mil caixas do antiviral oseltamivir, medicamento que pode reduzir as formas graves da doença, foram distribuídas às secretarias estaduais de saúde do país. “A ação é preventiva e visa evitar que ocorra desabastecimento do medicamento”, explica a secretária substituta de Vigilância em Saúde, Sonia Brito.
Ela ainda assegura que “a medida mais eficaz, para evitar agravamento dos casos e óbitos é o acesso rápido ao antiviral oseltamivir”. O ideal é que o medicamento seja usado 48 horas depois do início dos sintomas. O medicamento, no entanto, apresenta benefícios, mesmo se passado o prazo após o surgimento das manifestações clínicas.
Memória
O inverno de 2009 foi diferente de todos os outros. Além das gripes e resfriados, a estação fria do ano trouxe uma ameaça a mais para a população: o vírus influenza A de letalidade desconhecida por ser ainda pouco conhecido. O primeiro caso no Brasil foi identificado em 25 de abril, quando dois turistas vindos do México, considerado o epicentro da doença, chegaram ao país com sintomas da chamada “gripe suína” ou H1N1.
A partir daí, a doença se espalhou pelo país, principalmente na Região Sudeste. Ao contrário das gripes sazonais, a H1N1 não atingia tanto os idosos, mas sim pessoas mais jovens (cerca de 80% dos óbitos). A comunidade médica não conseguia dar uma explicação para o fato de organismos saudáveis sucumbirem ao vírus, e o pânico se alastrou. O álcool gel desapareceu das farmácias e supermercados e qualquer espirro em ambiente fechado já era motivo para mal estar entre os presentes.
Os boletins diários da Organização Mundial de Saúde (OMS) e do Ministério da Saúde eram aguardados com ansiedade e davam a medida do descontrole da primeira epidemia global: em 11 de junho a OMS anunciou que a doença havia atingido o nível de pandemia (epidemia generalizada) por estar presente em todas as regiões geográficas do globo. Estudo publicado este ano pela revista médica The Lancet Infectious Diseases mostra que a pandemia de gripe A em 2009 foi mais mortal do que a OMS acreditava e que o número de vítimas pode ser até 30 vezes maior.
Vítimas do pânico e do preconceito
Bastou duas pessoas da cidade serem diagnosticadas com a gripe A para o pânico tomar conta da população do pequeno município de Pedrinópolis, no Alto Paranaíba. Com medo, pais trancafiaram os filhos em casa, aulas chegaram a ser suspensas e a Festa do Peão, a mais tradicional, cancelada. A família do pastor Eduardo Eli da Silva e Maria Lúcia Soares Silva, que não resistiram à gripe A e morreram, enfrentou mais do que a dor da perda.
Enquanto o casal lutava pela vida, internado na Unidade de Terapia Intensiva (UTI) do Hospital Madrecor, de Uberlândia, maior cidade do Triângulo, filhos e netos se viram vítimas de preconceito e discriminação. “É difícil. Entrávamos num supermercado e as pessoas saiam de perto. Olhavam atravessado, com medo de chegar perto. Como se fôssemos passar a doença para eles”, lembra o genro das vítimas, o tapeceiro Raphael Ribeiro de Paula, de 27 anos.
Num desabafo emocionado, o tapeceiro lembra que os filhos de 2 e de 12 anos chegaram a sofrer com ameaças e bullyng dos colegas de escola. “Quando é com a gente é diferente. A gente sabe se defender. Mas, quando escrevem ataques contra sua filha na internet e a tratam mal na escola, dizendo que não vai mais ter festa por causa dela, isso dói demais em você. Porque não dá para fazer nada”, desabafa Raphael, que, como último recurso, manteve os filhos fora da escola até que a situação melhorasse.
Filha do casal que faleceu, Isabel Cristina Antunes, de 33, se esforça para suportar a morte dos pais, mas não se conforma com a demora no diagnóstico. “Parece que as pessoas se esqueceram da doença. Inclusive os médicos. Se meus pais tivessem sido tratados da gripe A desde o início, poderiam, quem sabe, estar aqui com os filhos e netos, hoje”, lamenta. Segundo o secretário de saúde de Pedrinópolis, Richard de Oliveira, o diagnóstico demora porque só há laboratório capaz de fazê-lo em Belo Horizonte. “Os pacientes que morreram tinham diabetes, obesidade, pressão alta. Mas por isso é importante se fazer campanha. Para que esse paciente de risco se cuide e se vacine”, disse. (MP)
Fonte: Estado de Minas