Fragilidade da economia brasileira vem à tona com a crise

11 de Junho de 2012
por: Sílvio Ribas

O megainvestidor Warren Buffett, terceiro homem mais rico do mundo, sabe como poucos o segredo da multiplicação do dinheiro. Não à toa, suas declarações ganham dimensões extraordinárias, por mais irrelevantes que sejam. Pois veio dele uma frase que traduz de forma simples e clara o Brasil de hoje: "Quando a maré baixa é que descobrimos quem estava nadando nu". Até o fim de 2010, o país, mesmo com todas as suas deficiências, tirou proveito do maior ciclo de crescimento global em três décadas. Mas bastou o planeta botar o pé do freio e afundar em uma recessão que pode durar anos para que a economia brasileira revelasse a sua face real. Sem transformações estruturais de longo prazo, agarrada ao imediatismo, mantém o pé na mediocridade que a condena a crescer aquém do seu potencial e de suas necessidades.

Endividamento das famílias pode prejudicar os planos do governo (JUAREZ RODRIGUES/EM/D.A PRESS - 23/5/12)  
Endividamento das famílias pode prejudicar os planos do governo


O resultado desse quadro desolador se reflete nas estimativas do mercado e do próprio governo, que insiste no discurso de que o país já recuperou as forças e está pronto para avançar entre 4% e 5% ao ano. Diante do que se vê na indústria e no varejo, e mesmo no setor agrícola, se o Produto Interno Bruto (PIB) crescer entre 2% e 2,5% neste ano, a presidente Dilma Rousseff terá que se dar por satisfeita. Apesar de sua fama de boa gestora, não conseguiu tirar do papel as reformas que atacariam os velhos entraves ao desenvolvimento sustentado. Limitações na infraestrutura de transportes, pesados custos de produção e enorme burocracia para os negócios vão produzir o segundo PIB raquítico de sua administração. Pior: mesmo com toda a pressão do setor privado por ações concretas pró-crescimento, é possível que os próximos dois anos consolidem o chamado “voo de galinha”.

Para analistas ouvidos pela reportagem, essa urgência está ficando cada vez mais evidente, com o esfriamento das economias mundial e, sobretudo, a desaceleração da locomotiva chinesa, principal parceiro comercial do país. As medidas anunciadas semana passada pelo Planalto para tirar a economia da estagnação, novamente baseadas na oferta de crédito e que se juntam ao esforço pelo corte de juros bancários e à desoneração de setores industriais considerados estratégicos, foram alvo de críticas. Muitos enxergam na expansão de 0,2% do PIB no primeiro trimestre do ano em relação ao último de 2011 a confirmação do esgotamento de um modelo que deu certo aqui na crise global de 2008 e 2009.

MUDANÇA "A esta altura já está claro para todos que o governo não considera mais o tripé formado por meta de inflação, superavit primário e câmbio flutuante como essencial ao crescimento", avalia Sérgio Vale, consultor da MB Associados. Segundo ele, sem contar com ventos favoráveis do mercado global, restará ao país retomar a agenda reformista, como privatizações e reduções permanentes de custos, para investir e produzir mais e melhor, esperando colher frutos menos imediatistas.

Especialistas sustentam que o primeiro trimestre foi o pouso do declínio do PIB iniciado no fim de 2010. A economia deve ter reagido em maio, novamente graças ao consumo empurrado por estímulos oficiais. Para crescer mais, talvez seja preciso conter gastos de custeio e acelerar investimentos. A economia que cresceu 7,5% em 2010, virou “pibinho” de 2,7% no ano passado, percentual que poderá ficar igual ou pior nos 12 meses terminados em dezembro próximo. A previsão do Banco Central (BC) para o PIB de 2012 caiu para 2,72%, na quarta redução seguida, bem longe dos 4,5% garantidos inicialmente pelo ministro da Fazenda, Guido Mantega.

Dívidas devem frear o consumo

"O consumo não consegue sustentar a economia por muito tempo. Precisamos incentivar a competitividade e as exportações de manufaturados", afirma o economista Renato Fonseca, gerente-executivo de pesquisa da Confederação Nacional da Indústria (CNI). Mais do que afrouxamento fiscal em favor da demanda doméstica, o setor produtivo torce por programas de desoneração vinculados a estratégias empresariais.


José Luís Oreiro, professor da Universidade de Brasília (UnB), concorda com a tese e aponta o endividamento das famílias como o mais forte sinal de que a política econômica exige correções de rumo. Com 25% da renda comprometida com juros e prestações de dívidas, é relativo o espaço para o brasileiro a ampliar capacidade de consumir, mesmo com estímulos fiscais e monetários. Para se ter ideia, nos Estados Unidos, incluindo automóveis e hipotecas, o comprometimento da renda livre está em 16%.


"O modelo de crescimento baseado mais no consumo que no crescimento está fazendo água. A desindustrialização acelerada dos últimos seis anos também tirou capacidade de colaboração do setor produtivo mais dinâmico da economia", acrescenta. "O leque de medidas anunciado para estimular a economia pode até ser correto. O problema é que as soluções encontradas não estão devidamente amparadas por um plano de desenvolvimento de longo prazo", observa Victor Leonardo de Araújo, do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea).


Na sua opinião, a exemplo de outros períodos da história econômica do país, o foco ideal deveria ser a promoção de cadeias produtivas e a elevação do investimento, e não só dos gastos públicos. "O ideal é dobrar a taxa de investimento público dos atuais 2,5% do PIB, enquanto se busca vencer gargalos de competição externa, como câmbio e infraestrutura. Essa seria uma forma de reduzir a fragilidade das contas externas do país, com exportações concentradas em produtos básicos.(SR)

 

Resgate na Espanha
O presidente do governo espanhol, Mariano Rajoy, disse ontem que seu país evitou um resgate completo de sua dívida soberana devido a medidas adotadas para cortar o déficit público e a reformas econômicas empreendidas. No sábado, a Zona do Euro fechou acordo de empréstimo de 100 bilhões de euros para os bancos espanhóis. "Se não tivéssemos feito o que fizemos nesses cinco meses, o que se teria cogitado seria a intervenção na Espanha", disse Rajoy. Sete antigos bancos de poupança do país, que já receberam ajuda do governo, serão os primeiros a usar os recursos. Os bancos espanhóis concederam grandes volumes de empréstimos a empresas do setor imobiliário durante o boom de prosperidade que acabou em 2008, deixando credores com empréstimos podres em construtoras e complexos de edifícios de apartamentos inacabados.

 

Fonte: Estado de Minas

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